Travestis de Curitiba - Drikka Travesti - O meu jeito de fazer a minha história...
Setembro/2011
TRAVESTIS DE CURITIBA - DRIKKA TRAVESTI ... Uma história diferente dentro do mesmo contexto... Um olhar diferente dentro da mesma perspectiva...
O que é ser travesti?
Ninguém escolhe nascer homem ou mulher. Ninguém escolhe nascer bonito ou feio... Assim como não se escolhe nascer homossexual. Só que muitas vezes acontece. E o que fazer quando o corpo tem desejos que dizem não ser natural? O que faz a alma ficar perplexa quando o corpo em que habita vive o conflito de partes que não se encaixam? Não se nasce travesti... E, tornar-se travesti é ainda mais intrigante. Pois é como dar vazão ao masculino e feminino ao mesmo tempo... Dois corpos não ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo, é impossível! Então, ser travesti é algo que quimicamente é inviável... Mas, ludibria-se a lei da química com a metamorfose. Algo feio e desajeitado se torna belo e desejável... Com brilho enebriante... Brilho frágil, mas intenso como sol de verão. E como tudo na vida tem seu tempo, é talvez o tempo do travesti, o mais limitado, pois durante sua fase borboleta, ele esquece que foi uma lagarta, porém depois de mais um tempo ele perde as suas esfusiantes asas e, mesmo que não volte a ser a feia lagarta, também não será mais uma linda borboleta. Será talvez esse o preço de uma escolha, quando ele tem duas opções? Opções estas, que no final não se diferem muito, uma da outra. Ser travesti, é ser diferente, é viver com a diferença e sofrer com a indiferença. É uma luta de dois corpos que querem o mesmo espaço. É o espaço que não pode ser de dois. Ser travesti é como ter na frente uma fruta com dois sabores, onde se dá melhor aquele que morde primeiro o doce e deixa o lado amargo por último. Embora nem todos tenham a mesma sorte pois invertem as mordidas, e aí a vida é cruel. A vida não vem em doses iguais para todos, mas todos tem a oportunidade de dosá-la e tentá-la fazer valer a pena, mesmo que as escolhas estejam distorcidas e enganando um tempo e um lugar no mundo.
Boneca Drikka
Fone 41-9971-0844
ESPECIAL TRANSFOBIA
Quando somos excluídas das escolas, do trabalho, dos sistemas de saúde, nossos direitos são negados.
Assassinatos cruéis ou cenas de ódio ocorrem com nossas companheiras frequentemente e, muitas vezes aqueles que deveriam nos proteger são os próprios agressores. Em nosso país as leis são brandas demais para este tipo de crime. Os direitos das travestis são violados e as escolhas diferentes das ''normais'' não são respeitadas. Dessa forma somos obrigadas a aceitar a covardia que nos golpeia e nos humilha dia a dia.
E dizem que em nosso país não existe Transfobia. Se isso tudo não é Transfobia, o que é então?
Muitas vezes os projetos propostos por nossa causa ficam apenas no papel e não vemos nenhuma ação ser realizada para nos beneficiar, em vez disso o que ocorre é uma forma de obter lucros às nossas custas.
Até quando a sociedade vai continuar negligenciando nossos direitos? Nossas vidas?
Chega de hipocrisia, chega de intolerâncias às travestis, queremos viver nossas vidas com diginidade e respeito.
Texto de Liza Minelly - Presidente do Grupo Esperança de Curitiba.
DRIKKA, UMA TRAVESTI DE CURITIBA
Eu sou travesti por opção. Inclusive como travesti trabalhei no extinto Banco do Estado do Paraná por mais ou menos 6 meses. Acho que foi uma conquista, mas bem polêmica... Mas eu não queria mais continuar no banco onde fiquei por vários anos e por isso saí num plano de demissão voluntária, que pra mim, era no momento a melhor coisa a ser feita. Meus colegas me aceitaram numa boa, pois minha transformação foi feita lentamente, e de repente, parece que eles sempre conviveram comigo assim mais feminina. Não, que alguém não tivesse percebido quando entrei para a empresa, que eu não fosse homossexual, afinal eu era bem afeminado, principalmente no andar, no falar e nos gestos. Não digo que não sofri algum bullying camuflado, mas não posso reclamar, pois apenas uma pessoa no banco um dia chegou pra mim e disse que não aceitava o fato da minha situação como travesti, afinal eu entrara no banco como homem e era inaceitável que eu fosse trabalhar vestido como mulher. Eu tinha cabelos compridos loiros e próteses de mama. Não tinha mais como querer me vestir de homem. Pelo menos ele foi sincero e pra não ficar tão feio, reconheceu que eu era acima de qualquer coisa um bom profissional. Embora, deixou claro, que se dependesse apenas dele, eu estaria na rua. Vejam aí, que se dependesse dele eu poderia ter ganho um bom processo, pois ele foi incisivo na discriminação. Mas, enfim, no banco eu fiz muito bem o meu trabalho, conquistei maravilhosos amigos e fui atração durante muito tempo. Lembro que muita gente ia no banco e ficava o tempo todo me admirando ou perplexa me vendo trabalhar lá. Eu era um show, mas eficiente no trabalho burocrática que fazia.
Escrevi tudo isso apenas para ilustrar que eu pude como travesti fazer outra coisa que não fosse me prostituir. Mas na verdade a prostituição não era vista com maus olhos por mim, pois eu gosto, adoro sexo. Se assim não o fosse, talvez eu nem tivesse me tornado tão mais feminina e poderia ter ficado apenas um homossexual assumido, que tem bem melhores chances no mercado do que um travesti. Mas, de qualquer forma, é uma situação minha e, não quer dizer que outros queiram apenas serem travestis para ter melhores condições de sexo. Mas sabemos que para os travestis, realmente o campo de trabalho é limitadíssimo aos salões de beleza e a grande maioria mesmo acaba na prostituição.
Estamos vendo algumas melhoras, mas falta muito. Espero que travestis que tenham vontade de fazer alguma coisa, que lutem, pois fácil não vai ser, acho que nunca. Inclusive digo que até pra prostituição tem que ter talento, pois senão a gente sabe como acaba.
Boneca Drikka - julho/2011
Fui capa da revista sobre
Direitos Humanos em um Brasil sem transfobia. A revista é uma edição especial feita pelo Grupo Esperança de Curitiba, que tem na presidência: Liza Minelli. Na revista tem a
contextualização dos Direitos Humanos, conceitos do mesmo, a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, a homossexualidade no Brasil e seus
avanços nas conquistas de direitos. Especial sobre travestis, desde a
transformação, o uso de silicione e hormônios, o preconceito sofrido na
escola, no trabalho, na família. Uma revista super esclarecedora, voltada em especial para ongs que trablham com travestis.
11 de julho/2011 - BOA NOTÍCIA PARA OS TRAVESTIS DO RIO DE JANEIRO
Os travestis e os transexuais do Estado do Rio de Janeiro poderão usar
nome social (o modo como as pessoas são identificados na sua comunidade e
em seu meio social) para fazer matrículas em escolas, prestar queixa em
delegacia e fazer cadastros públicos. Decreto do governador Sérgio
Cabral, publicado nesta segunda-feira (11) no Diário Oficial do Estado,
determina que o nome social seja aceito em todos os atos e procedimentos
da administração direta e indireta . As denúncias de recusa devem ser
encaminhadas para a Secretaria Estadual de Assistência Social.
A medida atende a principal reivindicação da classe, segundo a
presidenta licenciada da Associação das Travestis e Transexuais
(Astra-Rio), Marjorie Marchi. De acordo com ela, o foco prioritário é
assegurar a matrícula de travestis e de transexuais em escolas da rede
pública.
"A não possibilidade de as pessoas frequentarem aquele ambiente de
acordo com o que são de verdade, com sua identidade respeitada,
acarretava grande evasão escolar de travestis, altos índices de
analfabetismo e despreparo técnico para o mercado de trabalho", disse.
Marjorie Marchi declarou ainda que o nome social representa para os
travestis o "mesmo que o nome representa para todo mundo". Como a classe
tem uma "discordância" com o gênero biológico, a identidade passa a ser
representada pelo nome em acordo com a nova expressão, explicou. "É a
mesma coisa com o artigo 'a' ou 'o', que deveria conjugar com o nome
social da travesti e não com um órgão pseudobiológico que se carrega
entre as pernas", completou.
Para evitar problemas com documentos oficiais, o decreto do governo do
Rio também esclarece que em casos de interesse público, o nome civil do
travesti ou do transexual deverá constar de documentos, podendo estar
acompanhado do nome social.
PARABÉNS MARJORIE!!!
Nota da Drikka:
Sobre o assunto acima, eu já passei por muitas situações constrangedoras, assim como outras travestis também. Eu sinceramente acho interessante passar por mulher, claro, sinal que sou feminina, mas não gosto de polemizar não.
Hoje por exemplo, quando quero marcar alguma coisa eu ligo como Sabrina, quando chego no local, aí sim eu explico.
Teve uma situação em que a atendendente que conversava comigo sobre cartão de crédito interrompeu a ligação dizendo que o sistema acusava uma voz feminina e eu estava com nome de homem. Claro, que faltou tato para a mesma e eu não tinha porque fazer barraco por telefone. Desliguei e fui à agência e resolvi.
Outra situação que tive que contornar foi na renovação da carteira de motorista. Vocês já sabem como é enorme a fila no Detran. Então todo mundo sentadinho nas cadeiras e a moça chama pelo 'nome' para exame de vista por exemplo. Conversei com a atendente que estava chamando e ela foi um amor e entendeu tudinho. Quando chegou minha vez, foi tudo perfeito e eu não deixei o povo se divertir. No passado eu fui diversão, mas agora sou mais fina né?
Ah, e muitos podem estar pensando ou tem vontade de me perguntar: - por que eu não troco meu nome oficialmente?
Eu sinceramente não gostaria. Gosto dessa coisa do nome oficial e do nome social. É algo particular meu.